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10 de mar. de 2010

A Moça Tecelã, de Marina Colasanti

  "Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
   Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
   Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
   Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
   Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
  Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
  Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

   Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
   Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
   Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta."

   

Este lindo conto é pleno de simbolismos: da alma feminina, da condição humana, da capacidade de criação, do tecido feito ou recebido ou decidido ou inventado que é cada um e cada vida. Tive o prazer de conhecê-lo através do grupo de teatro portoalegrense A Caixa do Elefante. Misto de teatro de sombras e de bonecos, com projeções e atuação de atrizes em pura dança, sua interpretação do conto foi mágica, macia, íntima, delicada. Um primor.

Corri atrás do livro. Que grata e nova surpresa: ele é todo ilustrado com bordados. Linhas e texturas constroem o texto visual e ampliam o literário. De vez em quando olho e leio tudo de novo, por puro prazer. Até levei o conto para aulas na universidade e indiquei às amigas, eu tinha que compartilhar com mais alguém a história. A moça tecelã é um conto, uma imagem e um desejo. 

Ah, quer saber o final? Empresto o livro, hehehehe. Ou mais rapidinho, sem as maravilhosas ilustrações, aqui.

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